Aula de História - Ponto de Evolução

03/06/2004 02:00
GARIMPEIRO

- Mãe! Vou para o garimpo. – fala João entrando em casa com um pacote na mão.
- Que conversa é esta meu filho? – disse Dona Genoveva da cozinha, com tom de brincadeira.
- Estou falando sério, Mãe. Já até retirei minha poupança do banco. – fala João indo ao encontro da mãe – Já completei dezoito anos e quero trabalhar. Há algum tempo eu venho conversando com Seu Chico Sete, e sempre gostei das suas histórias de garimpo. Bom, um dia desse ele me disse que estava indo para um garimpo de diamante no interior do Mato Grosso, e eu decidi ir junto com ele. É a minha grande chance de ficar rico e dar uma boa vida para a senhora Mãe!
- Mas filho! – fala Dona Genoveva com apreensão – Seu Chico Sete já tem muita experiência nesta vida, e todo mundo sabe que as histórias dele sempre mostram que estes lugares são repletos de violência, e muitas doenças.
- Não se preocupe Mãe. Eu vou me dar bem. Afinal de contas Seu Chico Sete teve sua primeira experiência no garimpo para poder hoje ser entendido no assunto. Em três meses estou voltando com tanto dinheiro que a senhora nunca mais vai precisar lavar roupa pra fora! Tchau Mãe. – João abraça a mãe, que com lágrima nos olhos se despede do filho único. No portão de entrada da casa Seu Chico Sete já estava a espera dele. Os dois seguem rumo a rodoviária para pegar um ônibus até a capital.
- Seu Chico. Tem certeza que a viagem de barco até Mato Grosso é segura? Nunca viajei em uma distância tão longa assim de barco. – fala preocupado João.
- Não se preocupe João. Além de ser uma viagem muito barata, também é divertida. Rola forró e cachaça o tempo todo, e poderemos saber de outros garimpeiros quais são os melhores locais para garimpar.
Durante três dias os dois viajantes subiram o rio, regados a muita cachaça e dança. Conheceram outros garimpeiros que buscavam enriquecer com diamante. Uns contavam mentiras e gabações espetaculares. Outros eram reservados em relação ao destino que estavam buscando, para não despertar a curiosidade de outros concorrentes. Por fim Seu Chico e João decidiram em rumar para o garimpo da Mata Fechada, popular pela fartura em pedras preciosas, mas considerado território para homens duros e espertos, devido a constante luta por território e poder. Desembarcaram em um lugarejo cerca de quinhentos quilômetros do garimpo:
- Daqui vamos pegar um avião! - disse Seu Chico – É a única maneira de se chegar até lá. Mas não se preocupe, já fiz várias vezes esta viagem de avião. Na primeira vez dá um frio na barriga, mas depois a gente se acostuma. Além do mais ouvi dizer que Preto Vesgo costuma fazer esta rota. Conheço ele, é um ótimo piloto.
Os dois acertaram o frete e embarcaram no avião surrado e maltratado de Preto Vesgo. O avião era tão repugnante, que qualquer vivente teria pânico em embarcar nele. João olhava admirado pela janela do avião. A paisagem era de mata fechada e muitos rios e igarapés. Depois de alguns minutos ele percebeu uma clareira na mata, era a pista de pouso. Como estava no período de chuvas, o avião deu umas derrapadas no pouso. João saiu da aeronave completamente branco de medo, e Seu Chico fez muitas brincadeiras com o acontecido.
- Agora teremos que andar três horas pela mata até chegar na currutela! – disse Seu Chico - É provável que cheguemos lá ao escurecer. Mas não se preocupe, já me informaram que na vila tem energia elétrica gerada por motores a diesel.
João agora se dava conta do que estava acontecendo. Realmente estava em um garimpo. Imaginava diamantes enormes e muita fartura. Estava maravilhado com a sensação que vivenciava. Quando eles chegaram na currutela, João se espantou com o que via. Muitos barracos feitos de lona, alguns de madeira, um formigueiro de garimpeiros indo e vindo, bêbados, falando alto, muitas mulheres sentadas no colo dos garimpeiros que tiveram sorte no dia. Estava de boca aberta:
- João! – falou Seu Chico – Fique aqui que eu vou encontrar trabalho. Provavelmente só acharemos serviço de bater terra no barranco, pois somos novatos. É um trabalho duro, mas é o começo. Depois vou encontrar um local para dormirmos por hoje. Não saia daqui.
João encostou-se em um bar e pediu refrigerante. De repente começou uma confusão em um dos bordeis da currutela. A disputa era pela melhor prostituta da vila. Dois grupos de diferentes empreiteiros acabaram entrando em conflito, e os tiros de revolveres e espingardas soavam alto. João ficou assustado de início, mas percebeu que as outras pessoas que andavam pela currutela agiam como se nada tivesse acontecendo. Muitos homens saíram correndo do bordel, seguidos por garimpeiros atirando sem piedade. Depois que tudo se acalmou estavam vários corpos estendidos no chão.
Todas as vezes que um episódio destes acontecia, o serviço funerário era solicitado, que tinha como função recolher os corpos e alugar um avião para levá-los até a cidade. O responsável por estes serviços era Pedro do Caixão. Enquanto Pedro do Caixão fazia a contagem dos corpos, Severino da Carabina se aproxima e pergunta:
- E aí Caixão? Fechou a cota?
- Faltam ainda dois defuntos. – falou brincando Pedro do Caixão.
- Então deixe que eu resolvo o problema! – Severino da Carabina saiu cambaleando de bêbado, atravessou a rua, olhou em volta, puxou o revolve trinta e oito, apontou para o rosto do João e puxou o gatilho.

Ricardo Papillon
enviada por Ricardo Papillon






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