Aula de História - Ponto de Evolução

17/05/2004 17:19
Tá fumando, Cabra?

O cerco já durava quatro dias no sertão do Ceará. Lampião e seu bando estavam a ponto de serem encurralados de vez:
- Tripa Seca! – gritou Lampião para seu jagunço de maior confiança – Os volantes já estão dominando a situação. Qual sua sugestão neste momento?
- Capitão, - fala com orgulho Tripa Seca – Sacrifiquemos dez de nossos homens e poderemos abrir uma brecha no cerco e enganar os “macacos”!
Lampião tinha muito respeito em Tripa Seca, menino muito novo, mas com uma valentia e inteligência característica. Tripa Seca deixara a cidade de Salvador em busca de um propósito, ser um dos jagunços do bando de Lampião, mas nem em suas pretensões mais otimistas nunca se imaginara sendo um dos cabuetas de estima do grande Capitão.
- Já tinha pensado nisto. – disse Lampião com um sorriso no canto dos lábios – Escolha os melhores homens e explique a situação. Diga que eles terão uma morte honrada, pois salvarão todo o grupo.
E assim foi feito, Tripa arquitetou todo o plano e os cangaceiros, sem hesitação, cumpriram o plano com bravura e perfeição, surpreendendo os soldados com um ataque frontal e suicida, proporcionando uma cobertura espetacular e cinematográfica para a fuga do bando de Lampião. Mas os bravos cangaceiros não eliminaram o pelotão e o Comandante do mesmo, ao perceber a tática eficaz, saiu furioso na captura do bando, mas determinado do que nunca. O bando de Lampião conhecia na palma da mão a caatinga desde Ceará até a Bahia. No entanto o número de soldados que vinham em seu encalço eram sete vezes maior, tornando muito difícil a fuga sem deixar rastros pela mata.
Vinte dias já se passavam desde que o bando de Lampião permanecia escondido no meio da caatinga, sem contato algum com os lugarejos e fazendas da região. A água cada vez mais se tornava mais do que vital e sim um desafio, pois não podiam desfrutar dos raros riachos e açudes para não denunciar o percurso, ou até mesmo a posição em tempo de permanência. Comida era, além de uma raridade, muito característica. Palma forrageira, fruto de mandacaru e xiquexique. Tudo ao natural, sem ao menos cozinhar, para não levantar suspeitas com a fumaça das fogueiras. Mas o que mais assolavam os cangaceiros era a falta de fumo. Já no período do cerco o fumo já estava escasso, além dos fósforos que já tinham acabado, e sem fogueira para acender o pouco do fumo que restava se tornava impossível dar boas baforadas. Muitos tentaram acender com pólvora os cigarros, mas acabavam queimando o rosto com a explosão da mesma. Apesar do apelo da maioria, a ordem do Lampião era de não tentar acender fogueiras, para não correrem o risco de denunciar a posição do grupo. Quanto em bebida alcoólica para alguns era suportável. Mas fumo não, a cabroeira já estava enlouquecida.
Em certo momento, eis que surge um velhinho montado em um jumento, passando por uma clareira e degustando seu único brejeiro, aceso pelo último fósforo.
- Capitão! – sussurrou Tripa Seca – esta vendo aquele cabra fumando vindo pela clareira?
- Já, e sei o que você está pensando. Mas pode ser perigoso. Se aparecermos para ele e pedir fogo, poderemos ser denunciados da nossa posição caso os “macacos” encontrem ele depois. – advertiu Lampião.
- Mas depois nós damos cabo dele! – disse Tripa com ar de sadismo e aflição - Toda a cabroeira quer fumar!
- Pois que assim seja! – finalizou Lampião. O bando todo ficou na tocaia, esperando a aproximação do pobre velhinho. Quando já estava a trinta passos todo o bando saiu da tocaia e tomou a clareira. O velhinho logo de súbito sabia que se tratava do bando de Lampião, pois a notícia de que todo os cangaceiros rondavam a região já era contada em todos os lugarejos. Com pressa o velhinho para seu jumento.
- Tá fumando, Cabra? – disse Lampião. Com um salto o velhinho já estava no chão.
- Estou. Mas já estou apagando, meu Capitão! – disse o velhinho pisando em cima do cigarro.

Ricardo Papillon
enviada por Ricardo Papillon






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