29/05/2004 00:57
COCA MALDITA
Ricardo já tinha dezesseis anos quando iniciou sua vida boêmia. Antes de sua transformação se dedicava completamente à leitura e a sua grande paixão, o xadrez. Mas com a puberdade já aflorada o inevitável passou a ocorrer. Saia na noite e sentia uma necessidade constante de experimentar novas experiências.
Certo dia estava ele no restaurante Italiano, o ponto de encontro preferido dos jovens iratienses, e em um momento Chupão seu primo degenerado e evitado até então, aparece no local. Ricardo, de forma convidativa, fez uma grande reverencia ao seu primo, com o intuito de se aproximar e iniciar um relacionamento alternativo. Chupão era considerado um parasita na sociedade daquela cidade, tinha dezenove anos e fora internado em uma clinica de viciados de entorpecentes, por uso de gândia e farinha. Ricardo, que uma semana antes vivenciara seu primeiro contato com a gândia, tinha o intuito de se entrosar com a galera, e assim ser aceito na tribo dos malucos que agora passava a admirar. Chupão sentou-se ao lado de Ricardo e iniciaram uma prosa sem importância, até que Chupão, de forma discreta e audaciosa, o convidou a fumar. Ricardo sentiu seu coração palpitar com rapidez, suas mãos começam a suar, e sem relutar começaram uma caminhada até a linha de trêm. Cada passo que Ricardo dava sentia que estava praticando uma grande imprudência, se sentiam um fora da lei, tinha vontade de desistir mas não queria ser ridicularizado e conseqüentemente acabar com suas chances de provar que era corajoso.
Atrás de um monte de mourões Chupão tratou a parada e começaram a fumar. Com certeza aquele fumo era forte, pois depois de algumas baforadas Ricardo teve a sensação de estar em um mundo paralelo. O rosto do Chupão, quando inalava a fumaça parecia formar uma visão de uma caveira, um esqueleto vivo.
No caminho de volta Ricardo teve um acesso de riso nunca vivenciado, fazendo com que Chupão ficasse preocupado que ele denunciasse a infração cometida. Porém, com muito controle Ricardo conseguiu se acalmar. Até que Chupão perguntou:
- Meus olhos estão vermelhos? Ricardo de súbito entrou em um estado frenético de riso, não conseguia falar, chegando a se babar todo. Chupão admirado, iniciou o mesmo ritmo de riso, mas pelo espetáculo de ver seu companheiro de forma lesada:
- Como posso ver se seus olhos estão vermelhos... disse Ricardo depois de cinco minutos Pois aqui está totalmente escuro! Depois de muito riso e comentários bobos, os dois retornam ao restaurante Italiano. Sentaram-se em um banco e admiram o movimento de pessoas e carros. De repente Chupão começou a se comportar de forma estranha. Algo o perturbava, se retorcia e olhava com os cantos dos olhos constantemente, até que abordou Ricardo:
- Cara. Você tem dinheiro aí? Ricardo presentiu que algo estava por vir. Aquela pergunta foi um tanto misteriosa. De fato Ricardo possuía dez reais, mas sempre ouvia dizer que todo viciado acabava até o último tostão com as nóias. Sabia que algo muito surpreendente iria acontecer, mas respondeu:
- Tenho dez reais. Chupão olhou para os lados, abaixou a cabeça, alguns segundos se passam e ele falou:
- Bom. Está a fim de coca? Ricardo estremeceu da cabeça aos pés. Não imaginava aquela proposta. Não naquela hora. Ele sabia que aquilo era a perdição, completamente inaceitável, queria recusar, mas tinha medo, a reação do Chupão seria imprevisível, e ao mesmo tempo não queria parecer infantil, fraco, mas sabia que poderia pagar um preço altíssimo. A apreensão dele chegou a ponto de não saber mais o que pensar, e com um sinal de cabeça aceitou o convite. Chupão de súbito se levantou e andou de forma tranqüila pela calçada. Ricardo vinha pensando o quanto estava sendo idiota, o quanto era fraco. Pensava constantemente em seus pais, na sua tia avô, e se sentiu a escória. No entanto sentia que devia mostrar entrosamento e conhecimento, para pelo menos não ser tratado como um iniciante:
- Chupão! Onde estamos indo comprar?
- No Bar do Paulo. respondeu ele friamente e direto. Ricardo ficou admirado, nunca imaginou que o Bar do Paulo fosse uma boca, passou a infância comprando doces e chiclete naquele bar, mas não queria mostrar uma suposta desinformação:
- Olha Chupão, você sabe que eu moro no bairro Rio Bonito, falou Ricardo com firmeza e realmente eu não sei dos contatos aqui do centro da cidade. Mas eu nunca imaginei que no Bar do Paulo vendesse coca!
Chupão para de andar de forma súbita. Um olhar confuso e questionador é lançado para o Ricardo. E então Chupão fala admirado:
- Como não? Faz sete anos que eu compro coca-cola no Bar do Paulo?! - De repente os dois entendem o que estava acontecendo. O grande engano da parte de Ricardo, e de uma forma muito intensa os dois caem na risada. Ricardo não conseguia se controlar, cada passo que eles davam em direção ao Bar do Paulo ele lembrava do seu grande erro de interpretação, fazendo com que Chupão entrasse em transe juntamente. Até que Ricardo faz uma proposta que solucionaria a situação:
- Chupão, por favor! Não peça coca, peça fanta! Eu não vou conseguir me segurar no bar se você pedir coca! Por favor!
- Está bem Ricardo. Vou pedir fanta. Chegando no bar, Ricardo morde os lábios segurando o riso e Chupão se dirige ao balcão, e pede para o Senhor Paulo:
- Tem fanta?
E o Senhor Paulo responde:
- Não, só coca!
Ricardo Papillon
enviada por Ricardo Papillon
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